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Neurosexismo: o mito de que homens e mulheres têm diferenças no cérebro

Pesquisas que tentam estabelecer distinção entre cérebro masculino e feminino não são conclusivas. O que alimenta esta ideia pode estar mais ligado à cultura

No livro “The Gendered Brain” (O gênero do cérebro, em tradução livre), a neurocientista da área cognitiva Gina Rippon cita uma pesquisa que “finalmente” revela uma diferença entre o cérebro da mulher e o do homem. Esse estudo, realizado com 21 homens e 27 mulheres na Universidade da Califórnia em 2005, deu volta ao mundo em anúncios publicitários, jornais, TVs e conferências de liderança corporativa.

Cinco anos depois, mais um escândalo tomou conta da mídia, quando a correspondente para assuntos médicos Jennifer Ashton, do canal americano CBS, disse que “os homens tinham seis vezes e meia mais massa cinzenta do que as mulheres”. Logo em seguida, obviamente, surgiram as notícias de que os homens têm mais talento para matemática e mulheres são mais hábeis para multitarefas.

Mesmo que, para isso, fosse necessário as mulheres terem um cérebro 50% maior, começaram a aparecer notícias sobre a correlação disso com o QI e a quantidade de massa cinzenta ou branco no cérebro de um e de outro gênero.

Neurosexismo

A história das pesquisas que buscam as diferenças entre os sexos é repleta de interpretações errôneas e números inconsistentes.

Gina Rippon, uma das maiores porta-vozes contra as “más” pesquisas da neurociência sobre a diferença de gêneros, diz que – de tempos em tempos – aparece uma pesquisa ou outra para dar sequência a este ciclo que tenta perpetuar a ideia de que existe diferença entre os sexos.

Este tipo de pesquisa, segundo ela, continua sendo feito em diversos laboratórios, mas explodiu mesmo quando apresentaram uma ressonância magnética.

No entanto, como diz o livro The Gendered Brain, ainda não existem conclusões exatas sobre estas pesquisas. Os cientistas modernos ainda não encontraram diferenças significativas e definitivas entre o cérebro de homens e mulheres.

No cérebro das mulheres, o processamento da linguagem não flui melhor entre os hemisférios, na comparação com o cérebro do homem, conforme sugeriu artigo publicado pela Nature, em 1995. Isso foi negado em estudo posterior, de 2008.

O tamanho do cérebro e certas características, como a proporção de substância cinzenta e branca, podem, sim, variar em função do tamanho do corpo. Mas estas são diferenças de grau, não de gênero.

Como Rippon notou, elas não são vistas quando comparamos um homem de cabeça pequena com uma mulher de cabeça grande. Isso não está nada relacionado a hobbies e remuneração.

Como acabar com o neurosexismo?

A mensagem central do livro da neurocientista Rippon é que “um mundo dividido por gênero produz um cérebro de gênero”. O livro reforça a ideia de que, para erradicar o neurosexismo, é preciso eliminar esse tipo de pesquisa. Rippon lembra, no livro, de uma citação de 1895 do psicólogo social Gustave Le Bon, que usou seu “cefalômetro” portátil para declarar que as mulheres “representam as formas mais inferiores da evolução humana”. Em outro exemplo, ela cita o engenheiro do Google James Damore, que escreveu para os colegas na internet, em 2017, que as mulheres não assumem mais cargos de tecnologia e liderança por “causas biológicas”.

A busca por provas de inferioridade das mulheres foi parcialmente freada mais recentemente com a ideia de “complementaridade” entre homens e mulheres. Esta linha de pensamento ainda diz que as mulheres não são menos inteligentes do que os homens e, somente, diferentes, o que coincide com ensinamentos bíblicos sobre o papel de cada gênero. Assim, diz-se que o cérebro das mulheres está mais ligado à empatia e à intuição, ao passo que o cérebro masculino seria mais voltados à razão e à ação.

Herança cultural

Se não existe diferença entre os cérebros de homens e mulheres, então o que explicaria as diferenças de comportamento e interesse de um gênero para outro? Segundo o livro de Rippon, isso é consequência de um mundo dividido em gênero, na cultura do azul-e-rosa, que moldaria o cérebro de meninos e meninas desde cedo.

Rippon estruturou seu livro em quatro teorias que explicam esta cultura: as pesquisas históricas sobre diferenças entre os sexos, baseadas em imagens do cérebro; o surgimento da neurociência cognitiva social, as poucas diferenças no cérebro de recém-nascidos e, por fim, ao triste fato de as pessoas acharem que mulheres talentosas são consideradas “trabalhadoras” e homens como “gênios selvagens”.

Tudo isso, segundo a neurocientista, pode contribuir para o ciclo de construção do cérebro e expectativas diferenciadas, níveis de autoconfiança e tomada de risco que levam homens e mulheres a diferentes trajetórias de carreira e sucesso.

Fonte: www.nature.com/articles/d41586-019-00677-x

ABOUT THE AUTHOR

É doutora em Neurociência e pioneira na aplicação da ciência do cérebro em palestras, cursos e consultorias para diferentes segmentos empresariais. Há 20 anos é professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo onde ministra aulas de graduação e pós-graduação sobre o funcionamento do sistema nervoso e suas relações com a mente e o comportamento humano. É também professora da PUC-SP onde assume na graduação a missão de promover conhecimentos de Neurociência para os alunos da Psicologia.

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