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Sentimentos de mágoa realmente fazem doer o coração?

Cientistas explicam como nosso cérebro responde à rejeição e por que usamos a palavra “dor” quando nos sentimos magoados. A dor do coração realmente é uma dor física?

Quando somos rejeitados, nos sentimos magoados. Será que este sentimento dói de verdade no corpo físico? A dor pode nada mais ser do que uma metáfora para a nossa angústia emocional. Afinal, não há como confundir um coração partido com um joelho ralado…

“Ainda assim, se você perguntar a alguém qual foi o pior momento de sua vida, provavelmente este alguém vai voltar ao início da infância e contar uma experiência dolorida de quando foi socialmente rejeitado”, diz Naomi Eisenberger, uma psicóloga da Universidade da Califórnia.

“Eu estava curiosa para saber o porquê disso e por que isso nos afeta tão profundamente”, afirmou a psicóloga.

Em 2003, Eisenberger e uma equipe de pesquisadores tentaram responder a essa pergunta examinando como nosso cérebro responde à rejeição e porque usamos o verbo “doer” para expressar o sentimento de mágoa.

Os pesquisadores observaram a atividade do cérebro de voluntários, por meio de um scanner de ressonância magnética, enquanto eles jogavam um game de arremesso de bolas. Os participantes achavam que eles estavam jogando com outros voluntários do estudo, mas na realidade eles estavam jogando contra um programa de computador. De repente, os “jogadores virtuais” pararam de jogar a bola para a pessoa que estava sendo observada por scanner- e o scanner mostrou atividade nas áreas do cérebro que estão relacionadas à dor.

Esse simples episódio de exclusão ativou duas áreas do cérebro que processam os aspectos emocionais e angustiantes da dor física. Uma das áreas é uma faixa em forma de C, dentro do cérebro, chamada córtex cingulado anterior, e a outra área é localizada bem no interior dos lobos temporais, chamada de ínsula anterior. Emocionalmente, a atividade nessas partes do cérebro nos diz “isso é horrível, eu preciso fugir disso”, diz Eisenberger.

“Talvez exista alguma verdade nas nossas palavras, por que dizemos coisas como ‘a rejeição dói´’”, diz Eisenberger. O cérebro parece processar a dor de sermos rejeitados “de uma maneira que parece bastante semelhante à dor física”, completa.

Porém, nada é tão simples assim quanto parece. Em 2014, Tor Wager, um neurocientista cognitivo da University of Colorado Boulder e uma equipe de pesquisadores treinaram um computador para analisar imagens do cérebro e desenvolver modelos de atividade cerebral para a dor física e a rejeição social.

Quando o computador analisou a nova imagem, era possível dizer, em 100% dos casos, se era um cérebro com dor física ou um cérebro experienciando uma perda social.

Rejeição e dor física compartilham um território neural em comum, “mas quando você realmente analisa detalhadamente e observa os padrões [de atividade], eles são diferentes”, diz Wager.

Ainda assim, Wager – cujo laboratório estuda como os nossos pensamentos e crenças influenciam nosso cérebro e nosso corpo – afirma que isso não diminui os efeitos da dor social.

“Não tem que ser a mesma (exatamente igual à dor física) para ser tão importante”, ele diz.

A rejeição pode levar nossa mente a pensamentos de preocupação e insegurança, e esses pensamentos “podem interagir diretamente com nosso sistema nervoso”, completa Wager.

O sistema nervoso, por sua vez, interage com todo o resto do corpo. Talvez o porquê de ser rejeitado doer tanto o coração esteja em algum lugar no meio dessas interações mente-corpo pesquisadas pelos cientistas.

Este texto foi traduzido do site Brain Facts

ABOUT THE AUTHOR

É doutora em Neurociência e pioneira na aplicação da ciência do cérebro em palestras, cursos e consultorias para diferentes segmentos empresariais. Há 20 anos é professora e pesquisadora da Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo onde ministra aulas de graduação e pós-graduação sobre o funcionamento do sistema nervoso e suas relações com a mente e o comportamento humano. É também professora da PUC-SP onde assume na graduação a missão de promover conhecimentos de Neurociência para os alunos da Psicologia.

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